terça-feira, 19 de agosto de 2014

Deus, O peixe e o mar (desapaixonar)

No quintal da minha casa havia um lago, o meu mar. Era lindo, cercado de pedras, com plantas ao redor, calmo e não muito grande, ainda que tivesse um número considerável de carpas dentro. Eram todas douradas com manchas brancas, todas pequenas para um mar, como era o meu, mas grandes para um aquário, todas eram cuidadas por mim e observadas por um que sabia o que  elas precisavam, sem que eu soubesse o motivo para que Ele estivesse observando.

Todo o dia eu alimentava meus peixes, um a um, um por vez. Quando ficavam bem alimentadas ganhavam peso; comiam demais por eu dar alimento demais, era sempre um banquete. O exagero era tanto que aos poucos, suas habilidades de natação não eram o suficiente para que suportassem seu próprio peso, então, conforme engordavam, afundavam, até que chegavam ao fundo do meu mar e, estando lá, viravam pedra, pedras em formato de peixe.

Deus, que até então estava como espectador, deixa seu estado, levanta, estende as mãos e habilmente pega o peixe-pedra, e, jogando-o fora, o fez sumir. Não pude entender nada naquela hora, mas aceitava ainda que não entendesse. Afinal, eu entendia que a vontade de Deus, era o melhor que eu poderia ter. Porém, isso era só o início. Na medida que alguma das carpas era alimentada, afundava, virava pedra e era retirada do meu lago por Deus. Aconteceu isso uma série de vezes, até que vi ali a última carpa. Talvez alguma outra se escondesse, mas não podia ver. Importava que podia enxergar apenas um único peixe.

Fiquei triste e chorei ao ver que tinha apenas mais um peixe, coloquei nela toda minha esperança. Apostei tudo nela, e tentei fazer tudo da melhor forma possível. No início, tudo parecia estar dando certo. Tentei não errar, não dar comida demais para aquela carpa, pois não queria que ela fosse transformada em pedra e sendo tirada do meu lago. Fiz tudo o que achava ser o melhor, e vi que não estava afundando, isso me deixava feliz, mas ainda havia algo errado, meu peixe estava com um olhar triste e ansioso por algum motivo que não conseguia entender.

A tristeza do último habitante do meu mar me abalava, já que não sabia o porquê do drama. Devia tê-lo alimentado como aos outros peixes, entregue mais do que estava entregando; devia ter oferecido o que a dócil carpa faminta queria, ao invés de tentar fazer o que eu achava que ela deveria querer e a tristeza daquele meu amado peixe o fez pedir para Deus levá-lo para fora do lago, e ele acabou atendendo ao seu pedido. Então sem mais peixes no lago, me entristeci, mas sabia que tudo havia acontecido porque não sabia alimentar meus peixes.