quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Melpômene e A Poética de Nós Dois

Hoje eu só quero te falar de poesia; afinal, tudo o que temos e almejamos é, sempre foi e sempre será, poesia.
Poesia somos nós, na métrica, na rima, no ritmo e na essência; Poeta rebelde é o que nos escreveu, pela ausência do uso do tradicional em nossos versos. Eis aí a nossa beleza, eu penso. Poeta diletante e erudito, além de tudo, por nos fazer metáfora de outros poemas, como Sartre e Beauvoir, Scott e Ramona, etc.
Poesia são nossas mentes entrelaçadas através dos olhos castanhos e gigantes aos quais me conecto pelos meus olhos, também castanhos, perdidos e apaixonados.
Poesia é a tua boca, com desenho delicado e definido. Boca que ganharia da Mona Lisa ao gerar debates entre acadêmicos durante séculos para entender a beleza dos teus lábios e, não chegando em conclusão alguma, apenas te contemplariam.
E mais, poesia é o teu corpo fluido e perfeito; cada estrofe de ti faria músicos quererem, sem sucesso, criar melodias para captar a tua essência. Já tens tua própria melodia, o som doce da tua alma, uma sinfonia cheia de cordas em compasso ternário, como uma valsa.
Poesia são nossos corpos juntos, o contato divino e unificante das peles que não param de se mover, o encontro das respirações intensas, constantes e sincronizadas. Assim, poesia é amor. O nosso amor. E por ser amor é coração, e o teu coração é poesia: sempre disposto e entregue, lindo e apaixonante, feito da carne mais quente e suave, aconchegante e gigante.
Poesia aconteceu. Aconteceu nesses seis meses, nesses nossos seis meses. Não se tratam de sonetos, nem somos parnasianos. Somos poesia sendo recitada todos os dias pelo Pai que nos deu como presente os poemas cotidianos para respirar.

Ramesses Munhoz

            

domingo, 23 de agosto de 2015

Teatro de Insetos

Um homem com seus pensamentos e sentimentos reduzidos a pó por decepções. Fora transformado em inseto por esses motivos. Agora, inquieto e procurando um modo de reencontrar sua humanidade, ou conformado com sua nova vida buscando a sua nova casa apenas com o endereço em sua mente, ou em seus instintos. Bom, não sei ao certo o que fazia. Seja lá onde estivesse indo, passou no meio de uma briga. Um homem e uma mulher bem vestidos discutiam algo que não soava inteligível ao inseto. Não importava, o seu caminho não era aquele, mas passou pelo meio dos dois. A mulher esperneando sem ritmo algum, pisoteou o pobre inseto. Era o fim das suas chances de voltar a ser humano.


Gregório, um inseto travestido em homem, arrogante, irritante, crocante e ignorante. Residia na mesma casa de madeira que sua esposa (quase ex-esposa, na verdade), Joana - o nome já diz tudo. Desde que se casaram, não pararam de brigar, e isso já tinha acontecido há dois anos. Até hoje nem eu, nem ninguém entendemos como eles conseguiram se casar, nem o motivo. Agora, enfim, estavam tendo uma conversa crucial, todo o relacionamento ia depender desse momento. Gregório citava com frieza cada uma das falhas de Joana, e ela, esperneando o chamada dos piores chingamentos possíveis. Não estavam preocupados com nada que pudesse estar acontecendo além do mundo deles, não se importavam com o barulho do chão de madeira ao bater os pés no chão, nem com os irritantes gritos que saíam de suas bocas, nem ainda se de alguma forma estavam interferindo na vida de algum outro ser.
Curiosa é a vida, incrivelmente. Pois após todo o acontecido, Gregório não resistiu à beleza irritada de Joana e suas sardas. Beijou-a. Desistiram de todas as mágoas. Foram felizes juntos, ao contrário de outros insetos.

sábado, 8 de agosto de 2015

Crônicas do Errante e sua Indissociável Mochila I

O único elemento lógico que habita dentro da própria vida é que ela não possui uma lógica própria. O mais ilógico nisso tudo é que as pessoas ainda se surpreendem com essa característica tão óbvia da existência. Risos. Talvez porque lá no fundo pensamos que realmente há um sentido único para o qual toda a vida flui, só que somos incapazes de perceber como, quando e o quanto isso acontece. Em parte, admito que acredito nisso e há mais um que acredita, e é sobre ele que eu quero escrever. Vamos chamá-lo de Errante.
A primeira característica visível do Errante é que ele não é a pessoa mais certa do universo, rema contra a maré e evita ao máximo estar de acordo com a maioria, isso se tornou um defeito à medida que se acha melhor por isso, e também ao deixar de gostar de músicas, comidas, livros e filmes apenas por ser o gosto da maioria. Particularmente, esse jeito é algo que detesto nele. Espero que ele mude e rápido. Enfim, vamos continuar antes que eu me perca. Uma parte interessante em ele não ser muito certo é que ele dá liberdade para coisas novas em sua vida, especialmente mudanças.  E um terceiro aspecto, vale lembrar, é justamente os erros que comete, não que esse seja o motivo de o chamarmos de errante, o apelido tem uma conotação diferentíssima.
Okay, outra interpretação possível seria dizer que ele anda incerto por aí, mas também não é isso que o torna errante. Não é como se ele fosse um nômade nem nada do tipo. Não tem dinheiro para sair andando pelo mundo e nem coragem para ser completamente independente de qualquer finança. Podemos dizer que ele é mais confuso que qualquer outra coisa. E na verdade, embora ele se entenda como o mais lúcido dos seres, essa confusão e falsa lucidez, talvez sejam responsáveis, nem que seja em parte pelo nome que adquiriu ao longo de sua semi-eterna estada em sua confortável casa.
“Mas por que essa... ah... loucura... faz dele um errante?” Alguém com mais razão que eu pode acabar perguntando – ou não – se algum dia, por um acaso, conhecer a história que estou lhes contando – e que, na verdade, ainda não comecei. A resposta é tão insana quanto a existência do próprio personagem: Ele vive para pensar alternativas para uma realidade, cria utopias e viaja em sua mente procurando maneiras de fazer tudo dar certo para ele mesmo; Perambula em labirintos mentais procurando respostas para perguntas que se existem são muito confusas e se ele disser que as entende, está apenas tentando parecer intelectual.
Eu nunca disse que tinha alguma lógica nesse apelido, muito menos disse que seria por conta de algo genial. Pelo contrário, alertei desde o início que seria insano. Além da falta de inteligência e de sentido – um niilismo completo – todos os devaneios o colocam no centro de seu próprio pensamento como se toda mudança no mundo tivesse que passar por ele para que decida o quanto é bom e válido tomar determinada medida. Pois é, Errante não passa de um babaca arrogante. Acho que se pudesse, ele viveria no universo daquelas distopias como Admirável Mundo Novo. Enfim, tudo isso construiu o Errante, ainda que sem muita razão, mesmo que meio tosco.
Ainda há algo a comentar, afinal, sem tocar no assunto o título seria ainda mais injustificável. Um elemento tão presente que embora não fosse uma característica do Errante, estava quase fazendo parte dele. Tá, já sabem que estou falando da “indissociável mochila”. Não é que fosse impossível retirar do corpo como se fosse uma coisa só – eu só queria usar uma palavra bonita –, mas onde está o Errante, está a mochila, mesmo que ele use um terno ou que ela estivesse vazia, ela está lá. Por isso onde estiverem escutam comentários – alguns mais divertidos que outros, pra ser sincero. Mesmo assim, nada é suficiente para separar os dois. Na verdade, uma comparação bastante justa seria com um violino que é vendido como o violino em si e o arco, sem o qual o violino não tem o mesmo efeito, é necessário que estejam aos pares. E por isso o personagem adquiriu essa grande afeição pelo seu objeto favorito no mundo inteiro.
Sei que estou me prolongando demais em perfumarias e que ainda nem comecei a história, mas com paciência chegamos lá.
Antes de continuar é necessário – mentira – descrever do conteúdo da mochila. ­­­­Era bem grande e com muitas aberturas. Acho que é um dos motivos pra ele gostar tanto dela. Cabe muita coisa nela, mesmo! Num dos compartimentos menores sempre estava um bloco de notas e um lápis ou caneta, ele variava à medida que ia perdendo e achando, mas o bloquinho estava sempre lá, quase tão importante quanto a própria mochila. Num compartimento um pouco maior, uma garrafa d’água e, improvisadamente isolado, o livro que estava lendo no momento. Ao lado, eventualmente, aparecia uma câmera, mas não tirava fotos com tanta frequência. Na parte maior estava às vezes um casaco, um caderno, ou um livro quando não cabia no outro compartimento, sem contar com a comida.
É importante agora – importante mesmo! – constar o cansaço e o nível de esgotamento mental em que o Errante estava em um determinado momento de sua vida, ainda que não pense coisas lá tão úteis, pensa demais, não tem um tempo de ócio mental e isso acaba fazendo seu cérebro entrar em curto. Precisava de algo diferente, não queria mais a rotina e os problemas do dia-a-dia. Se achava superior demais para isso, mas do modo em que estava até eu tive que concordar que ele precisava fazer algo. Embora eu achasse que ele precisava de um psicólogo, ele acreditava precisar ser realmente aquilo que já estava no seu nome: Errante.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Exílio e O Asilo

A tarde era escura, quase como noite, e as nuvens pesadas encobriam todo o topo do céu, assim só podia vê-lo no horizonte, mas mesmo lá não havia luz. Acho que não é necessário dizer que choveu, e como choveu. Eu gosto da chuva, mas já estava farto dela no instante em que ela começou a cair. Essa água fez parte da minha vida em muitos momentos importantes, a ponto de eu simplesmente ter me enjoado. Espero que as nuvens não tomem isso como algo pessoal, até porque ainda amo sentir as gotas caindo, principalmente sobre o topo da minha cabeça, só não queria nada disso naquela hora.

Ainda assim decidi sair por aí, como eu não fazia há muito tempo. Não foi uma decisão tão espontânea e tão minha, contudo continuava sendo a escolha que eu fiz. Me pus a caminhar, sem objetivo algum, apenas uma perna na frente da outra, ambas debatendo sobre o que viria depois. Andava só, na selva de abstrato cheia de prédios sem forma nem sentido, que se espalhavam modulantes em todas as direções, o meu olhar contrastava o que eu enxergava com os pensamentos que achava ser concretos anteriormente e era tudo tão incolor que até mesmo eu me acinzentava. Nada de edenico nessa caminhada, muito pelo contrário, em minha mente estavam as projeções dantescas do futuro próximo enquanto minhas pernas continuavam indo adiante. Estava sem perspectivas do que viria a seguir, passei a simular cenas que nunca ocorreriam, cenas coloridas que modificariam o panorama preto e branco que se anunciou mais cedo. A pouco o sol estava no centro do céu, antes de as nuvens se fecharem sobre ele, e nesse contexto é que eu fui exilado.

Parece até exagero falar em exílio e assim, sem querer, me comparar a pessoas que se encaixariam nesse termo muito melhor que eu, mas a questão é que eu fui sim retirado do lugar que eu achava ser vinculado a mim. Tudo aconteceu sem desastres homericos, na verdade. Apenas fui sendo marginalizado aos poucos até cair em esquecimento. Sem hiperboles, apenas pontos factuais. Fui excluído da vida de uns, privado de lugares, exilado da memória de outros e ainda, ostracizado da literatura de alguns mais. Como se nunca tivesse vivido o que vivi, como se não estivesse estado lá naquele dia que todos lembram como incrível, o qual acabou por virar escrita, e ainda, como se eu não fizesse parte dos motivos para aquele ser um dia inesquecível, como afirmam. Como se, também, não tivesse feito parte das vidas daqueles que me chutam para fora por motivos completamente duvidosos. Ainda, como se eu fosse um problema… um problema, não… O maior dos problemas… não, não, ainda não… O único problema. Okay, talvez a maioria vá pensar que isso tudo não passa de coitadismo (aliás, que palavra feia), ainda é a verdade, e a minha existência em meio a existência de outros foi sumindo em gradiente, como um fade out ao fim de uma cena em um roteiro.

O curioso é que a vida continua, e eu, ostracizado, ainda existia, mesmo que apagado em diversas estruturas, ainda que esquecido por sujeitos individuais. Estar apegado ainda era um problema, mas era tarde. Agora o objetivo era encontrar asilo, lugares de calma e paz, vidas nas quais pudesse me depositar novamente. E continuei andando. Me sentei em frente ao mar no dia escuro e frio entregando gotas a quem deveria conter toda a água existente em mim. E agora que tudo o que havia de líquido em mim havia encontrado asilo, era vez do eu sólido encontrar um lugar para ficar, e procurava conversar com alguém que pudesse me ajudar, e por isso movi minhas pernas ainda mais. Elas gritavam, agora, andando cada vez mais rápido em direção de algo, em caminhos tortuosos, confusos para o meu entendimento. Por esses caminhos encontrei asilos antigos, manicômios, prisões e hospitais… Foucault me entenderia agora, e entenderia também o porquê de eu não querer permanecer nesses lugares, não era ali que deveria estar. Merci, Michel.

Ainda precisava de um lugar e não achava. Por isso minhas pernas, já cansadas e doídas ainda aceleravam o seu movimento a fim de me levar ao lugar onde eu precisava estar e em meio a vozes dissonantes e instrumentos desafinados, eu me encontrei. Ali estavam as frestas que me ventilavam, novidades que pareciam me iluminar o futuro, de algum modo, tudo o que eu mais desejava, mesmo sem saber muito bem do que se tratava, como diz a canção, eu podia encontrar naquele mesmo lugar. Lugar de asilo, refúgio, descanso. E eu pude reaparecer, reexistir, fui recolorido e restituído, era eu ali, novo em folha, no meu lugar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Xeque Mate

É, me ganhaste. Não que resida algum problema nisso, só que eu nunca fui um bom perdedor e acho que não mudei em momento algum. Não esperava a derrota, ainda que não soubesse jogar o jogo. Esperava que a minha mente me protegesse, estava crendo que minha inteligência poderia me manter avisado de qualquer coisa que pudesse acontecer. Não percebi que cada detalhe faz diferença num jogo como esse, mas o maior dos detalhes é que eu não sei as regras.

Na verdade, tem razão quando dizes que eu sou um inexperiente para jogos deste nível, de fato, nunca joguei nada assim e, sinceramente, não me importo com isso. Por outro lado, talvez pudesse entender cada movimento das suas peças se soubesse mais sobre como funciona tudo isso. Na verdade, acho que eu posso justificar a minha “ruindade” dizendo que eu mal penso nas minhas jogadas, apenas em como reagir às tuas, pois apesar de me deixares jogar primeiro, sabes muito mais que eu o que fazer a seguir e acabas com isso sempre tomando a dianteira nos ataques.

No entanto, sempre me deixas ir primeiro em tudo, eu gosto do jogo, mas isso sempre me chama atenção. Eu tento simplesmente realizar minhas jogadas em função das tuas, mas os teus movimentos são em sua maioria em resposta aos meus. Entendo o teu receio, na verdade, quando não querer agir antes de mim e admiro isso, admiro tuas jogadas e as tuas respostas às minhas sempre me deixam embasbacado, mas acima de tudo, gosto como me analisas a cada rodada enquanto eu analiso a tua análise, imaginando que deves estar prevendo cada movimento que eu possa fazer ou que, talvez, queiras me levar a algum lugar específico onde possas realizar com sucesso as tuas estratégias.

Bom, essa foi a nossa abertura, e ela ocorreu de um modo muito estranho, nunca imaginaríamos onde nossas peças estariam agora, verdadeiramente, foi uma abertura bem incomum, mas ao menos estamos com nossas peças mais importantes protegidas para que não precisemos nos preocupar com tristezas mais tarde, porém, todo o receio incluído nas nossas mãos enquanto mexemos os peões me assusta, pois gostaria que tudo nesse jogo fosse mais natural e espontâneo, sem medo e sem dúvidas… Não posso fazer nada, a confusão faz parte do esporte e eu já deveria ter me acostumado com isso.

No meio-jogo tudo ficou mais louco, e por isso mesmo, melhor! Sempre me ajudaste em todas as minhas jogadas e eu sempre te acompanhava nas tuas. Aconteceram muitos ataques, e eu desatento, perdi cavalo, torres e bispo. Isso é o que acontece quando, enquanto se joga, se fica pensando em ósculos, mas enfim… Com o cavalo que me restava osculei a dama mais charmosa - ou deveria dizer demente? - do tabuleiro. Isso me deu vantagem, mas ainda sim, minha derrota estava certa, pois com poucos movimentos certeiros me imobilizaste, deixaste com que não pudesse mais me mover para salvar o jogo, e agora tenho medo que qualquer movimento acabe com o jogo.

Chegamos ao fim do meio-jogo, mas não quer dizer que o jogo esteja acabando. Me ganhaste e isso é um fato, mas agora só posso pensar em tentar, de alguma forma, permanecer no jogo sem fazer movimento algum, se assim me permitires. Gostaria que desses os próximos movimentos, mas sem que tudo isso acabe, não estou pensando em ir a lugar algum, só em ficar sentado olhando para tudo, analisando tudo e vendo o quanto tudo isso é promissor. Me diz o que fazer, pra onde me mover… Ou melhor, não fala nada, não move nada, já me tens ganho e pode tudo continuar assim, já não quero te perder.
E nas palavras do Camelo: “Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor”.





quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

10 motivos para eu não ser aquele cara

1 - Não sou baixista;
2 - Não sou canadense;
3 - Nunca namorei uma loira que mudou de nome e virou do mal;
4 - Não tenho "o poder do amor";
5 - Não tenho 23-24 anos;
6 - Não tenho um colega de quarto gay;
7 - Não me chamo S.P.;
8 - Não tenho uma banda;
9 - Não sei lutar;
10 - Não posso entrar no subespaço da tua mente e tirar o G. (ou F.).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Culpa

Era quinta de manhã, não como as outras quintas, parecia uma quarta, na verdade. O cansaço e o sono me consumiam lentamente enquanto eu sentava em minha gélida cadeira, tomando uma caneca grande de café quente. Não havia ânimo nem para girar na cadeira, como fazia todos os dias. Quando chegada a hora, me direcionei a uma nova sala, uma nova aula de filosofia, na qual um novo velhinho contava sua história. Todo o conhecimento pós-traumático adquirido em sua vasta demonstravam raiva e um desconhecimento que criavam ódio pela única coisa que não podia compreender, e - embora não fosse admitir - vinha por uma única razão: Culpa.

Todo aquele sentimento entrava em meus ouvidos e me fazia questionar as afirmações do homem que não olhava em meus olhos. Recordo-me de Édipo, que pela culpa, furara os olhos com os colchetes de ouro das vestes de sua falecida mãe e esposa. Não pude conhecer os olhos do incestuoso Édipo, nem tampouco de qualquer um dos personagens que ali viam a desgraça vinda pelo destino, porém pude reconhecer no olhar daquele homem, assim como de qualquer outro.

Saio daquele ambiente e as nuvens negras mostram que todos abaixo dela têm culpa. E num giro vejo em todas as pessoas o mesmo olhar raso e apertado, cabeça baixa e corpo retraído, mas todas essas expressões pareciam mais intensas naquela que estava próxima a mim. Toda essa demonstração de culpa mostra-se mais próxima a cada segundo, o tempo passa e cada futura ação aproxima-se lentamente. Assim como aprendi com Verissimo, todos no escuro da noite - ou sob nuvens escuras - não são o que aparentam. Não somos os mesmos quando o sol se põe e a lua aparece. A luz indireta revela sombras que desconhecemos, por isso, pude admirar cada olhar, cada passo e cada abraço banhado pelo remorso e percebo em cada coração um aperto diferente.

Tentei deixar de lado a dor por um instante e dei lugar a fome; o vazio em mim saiu do peito e foi para o estômago. Me dirigi ao restaurante onde costumava almoçar - um ótimo restaurante, de fato - mas mesmo com a fome substituindo a tristeza, não pude comer feliz, meu paladar havia sido afetado pelo amargo do que ainda poderia acontecer. Me locomovi com uma sensação indescritivelmente ruim e que me deixava sem perspectiva e sem entender o porquê de todo o transtorno. Passei a perceber que, na verdade, não há consolo para um sentimento que vêm sem razão conhecida.

Voltei para a minha sala, girei em minha cadeira, mas nem isso me alegrava, tomei café, o mais forte e quente que podia naquele momento, mas nem isso me deixava mais animado. Me sentia culpado, mas por quê? Trabalhei um pouco, mas não pude aguentar por muito tempo: larguei tudo e saí. Fui de encontro a quem, naquele momento, me parecia mais apto a me confortar: uma grande amiga, que sempre me acompanhava naqueles meses de amizade. Por não haver um modo simples de resolver problemas que não podem ser compreendidos, tudo o que ela pode fazer foi me abraçar, o que não diminuía o remorso futuro, pelo contrário, aumentava. A culpa me machucava ao máximo, me afligia e tudo o que eu podia fazer era abraçar mais forte a minha acompanhante.

O tempo passava, mas era o que menos importava, eu só podia pensar se tudo o que eu estava sentindo ia passar em algum momento, tentava lembrar de cada atitude do meu passado para ver se nas gavetas da minha memória acharia a causa do meu pesar. Nada aparecia, mas parecia que algo iria acontecer. Abraços não eram o suficiente pra afastar os pensamentos que gritavam em minha cabeça.

Passei a olhar nos olhos da jovem próxima a mim, sua mente entrava na minha, minhas mãos afagavam seus cabelos, ainda que fosse eu quem precisava de afago, os olhos se aproximavam cada vez mais, até que em algum momento, os narizes se encostaram, passamos a sentir a velocidade da respiração um do outro, e podemos imaginar ali o que aconteceria em breve. Corações aceleraram e a negação vinha a mente de ambos. Nada podia acontecer, não era o melhor.

Conheciam-se os dois há pouquíssimo tempo, ambos andavam inconformados com suas vidas naqueles dias e decididos a apenas fazer decisões melhores que as que já tinham feito, cada um estava tentando conseguir o melhor, e sabiam que para isso, deveriam observar cada passo e cada olhar, cada ato. Sofreram demais por culpas passadas, e, agora tinham novas chances para viver de modo diferente: por que desperdiçariam uma oportunidade de mudar? Havia um único problema. Naquele momento, se identificavam com Alex, um jovem ultraviolence que apesar de sofrer as consequências por seus erros, não conseguia deixar a vontade de voltar à velha vida novamente. Cria que o mal estava dentro de cada um, e que esse mal deveria ser mantido. A culpa que Alex 'deLarge' sentia, não era suficiente para impedí-lo de cometer seus atos criminosos. Da mesma forma, as melhores perspectivas que eu e ela tínhamos para nossos futuros próximos, não eram suficientes para que impedíssemos pensamentos que nos tirassem do objetivo principal. Alex... Nós te entendemos.

Já era tarde demais, o espaço entre nós era menor que o tempo que tínhamos para raciocinar as nossas ações conseguintes. Olhos nos olhos, narizes se encostando e brincando, tudo ocorrendo na velocidade da luz, ainda que o tempo parecesse estar congelado; os dois jovens tinham plena consciência do que estava acontecendo, estava tudo tão claro, mas não conseguiam parar, e estava tão perto de acontecer... Um beijo. Aconteceu. Os corpos, vazios, de repente tornavam-se cheios... de culpa. O que aconteceu comigo? Estava tão certo de que me mudaria meu modo de agir... Me mantive são e sempre que tinha a oportunidade de voltar atrás, de me tornar o meu antigo eu, eu me esquivava, mas agora eu não pude... me deixei vencer... O que está acontecendo?

Não queria me sentir culpado, mas me sentia. Eu estava tão orgulhoso de ter a melhor conduta, fazer as melhores decisões, me orgulhava de não ser impulsivo ou irreflexivo como a maioria dos jovens. Por muito tempo me forcei a melhorar minhas atitudes e meus relacionamentos. Nunca esperei que eu pudesse ser impulsivo novamente, tinha me educado a uma vida metódica e o beijo teria acabado com tudo o que eu tinha aprendido a conhecer sobre o meu novo eu. Onde estava o eu?

Fui só um hipócrita de bosta, nada passou de um exercício de futilidade. Tentar mudar, forçar atitudes, pensamentos e moralidades, isso não funciona, apenas mata. O homem morre quando deixa de ser quem ele é, quando deixa de fazer o que lhe compraz, sem ser hedonista demais, mas as pessoas buscam sim a fuga da dor, é verdade quando dizem que as pessoas buscam o prazer antes de tudo, tudo flui através de desejos fúteis e mesquinhos, espontaneidade e romantismo passam a ser simplesmente ferramentas para a obtenção de anseios.

Passaram-se meses, e eu consegui me sentir aliviado, calmo, e por isso, apto a tomar decisões. Percebi que tudo é uma questão de amadurecimento, um amadurecimento real e sincero, amadurecimento os desejos, dos quereres, dos objetivos. Ainda não sou alguém maduro, mas pude entender qual é a minha vontade agora, e por isso, sei que cometi um erro sim, mas não pelos motivos que acreditava antes, e isso não me dá direito de sentir culpa, pois a minha falha foi não saber o que queria.